Nesta edição:
Opinião: Riscos de silêncios e a importância da governança, um olhar sobre IA em PMEs?, por Samuel de Jesus Monteiro de Barros
Pílulas tributárias, por Mariana Di Nardo
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Um clipping sobre as iniciativas da ACBrasil e temas relevantes para a governança corporativa
Empresa ‘clona’ funcionário com IA e gera reações
No fim do mês passado, uma empresa chinesa substituiu uma funcionária de RH por um agente de IA treinado com suas mensagens. A lógica por trás do projeto é direta: alimenta-se um modelo de IA com os históricos de conversa, documentos, e-mails corporativos e prints de um trabalhador, e o sistema gera um agente virtual capaz de substituir aquela pessoa, replicando não só o conhecimento técnico, mas o estilo de comunicação e até as estratégias pessoais para desviar de responsabilidades. A iniciativa gerou reação dos funcionários da empresa, que supostamente estariam sabotando dados.
Uma reportagem sobre este levantamento pode ser acessada aqui:
Opinião
Riscos de silêncios e a importância da governança, um olhar sobre IA em PMEs
Samuel de Jesus Monteiro de Barros, associado da ACBrasil
https://www.linkedin.com/in/samuel-barros-2a846935/
Vivemos um momento em que a inteligência artificial deixou de ser promessa e passou a ser rotina. Ela entra pelas bordas da organização, resolve problemas pontuais e, quando se percebe, já está moldando decisões, processos e relações de poder. Para conselheiros de administração, fiscais e consultivos de pequenas e médias empresas, esse movimento exige menos fascínio tecnológico e mais atenção ao essencial, com foco em governança, pessoas e, principalmente, confiança.
Há quem acredite que temas como “clonagem de funcionários por IA” sejam exageros ou distorções típicas de grandes corporações estrangeiras. Esse é um erro perigoso. A lógica por trás dessas práticas de capturar conhecimento, padronizar decisões e reduzir dependência de indivíduos é justamente a lógica que mais seduz empresas menores, onde tudo costuma depender de poucas “pessoas-chave”.
Nas PMEs, o conhecimento não está em manuais sofisticados, mas na cabeça de quem “faz acontecer”. O risco surge quando ferramentas digitais passam a extrair esse saber sem um debate claro sobre limites, propósito e consequências. Não se trata de ser contra tecnologia, mas de reconhecer que conhecimento humano não é apenas um ativo operacional, mas também é parte do vínculo psicológico e ético que sustenta a organização.
Para o conselho de administração, o alerta é direto e objetivo, a IA em gestão de pessoas não é tema de eficiência, é tema de poder. Quando decisões são tomadas para “reter conhecimento” sem transparência, o recado implícito é simples e gritante, pessoas são substituíveis, suas histórias não importam. Em empresas pequenas, esse sinal se espalha rápido e cobra um preço alto com retração, medo, perda de iniciativa e, em alguns casos, sabotagem silenciosa.
O conselho fiscal, muitas vezes subestimado, tem aqui um papel relevante. O uso intensivo de dados (e-mails, mensagens, históricos de decisão) cria riscos que não aparecem imediatamente no resultado, mas se acumulam como passivos ocultos, principalmente, trabalhistas, reputacionais e até jurídicos. Mesmo quando a legislação parece distante ou pouco clara, a responsabilidade não desaparece. Ela apenas é postergada.
Já os conselhos consultivos enfrentam talvez o dilema mais sutil. Muitas vezes atuam próximos demais da gestão, ajudam a destravar gargalos e acelerar transformações. Justamente por isso, precisam resistir à tentação dos atalhos. Automatizar processos é positivo, mas automatizar relações humanas, sem critério, é renunciar à inteligência institucional, e que no final, é a que realmente importa.
É comum ouvir que “a IA não decide sozinha”. Isso é verdade, mas incompleta. Sistemas moldam comportamentos, incentivam certas práticas e silenciam outras. Quem define esses sistemas (e com quais premissas) já está tomando decisões estratégicas. Se o conselho não participa dessa conversa, alguém participará em seu lugar, geralmente com foco restrito a custo e velocidade.
Há também um ponto ético que não deve ser ignorado, mesmo por quem se diz pragmático. Empresas vivem de confiança. Funcionários aceitam compartilhar conhecimento porque acreditam que há reciprocidade. Quando essa confiança é quebrada, não há algoritmo que a reconstrua. Em PMEs, onde a proximidade é maior e os canais informais são decisivos, essa ruptura é ainda mais visível.
O papel do conselheiro, portanto, não é discutir detalhes técnicos nem escolher ferramentas. É fazer perguntas incômodas, porém essenciais, afinal, por que estamos fazendo isso? Que problema real estamos tentando resolver? Onde termina eficiência e começa desumanização? Quem responde quando algo dá errado?
A inteligência artificial torna mais urgente uma boa governança com regras claras, critérios e fluxos acertados. Em pequenas e médias empresas, conselhos atentos podem ser a diferença entre usar a tecnologia como alavanca de crescimento ou como gatilho de conflitos silenciosos. E, no fim das contas, silêncio em empresa raramente é sinal de paz, quase sempre é aviso de que algo importante deixou de ser dito e que a conta chegará logo.
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Pílulas tributárias
Reforma Tributária e precificação na transição
Mariana DiNardo, do Comitê Jurídico da ACBrasil
https://www.linkedin.com/in/marina-di-nardo-987020b9/
A transição já começou, mas muitos preços continuam no passado
Como é de conhecimento, a fase de transição da Reforma Tributária já se iniciou e está a todo vapor. Porém, muitos empresários brasileiros ainda precificam seus serviços e mercadorias como se nada tivesse mudado, especialmente nos contratos que terão vigência durante os anos de transição, entre 2026 e 2032.
Dois sistemas tributários vão conviver ao mesmo tempo
Entre 2027 e 2032, o Brasil vai conviver com dois sistemas tributários em paralelo. O antigo, composto por ICMS, PIS, Cofins, IPI e ISS, será gradualmente reduzido. O novo, formado pela CBS e pelo IBS, será introduzido aos poucos. Apesar de o desenho parecer organizado, as tabelas de preços não vão se ajustar sozinhas e a elevação de IBS e CBS, em paralelo à redução de ISS, ICMS, PIS e Cofins, precisará ser considerada desde já.
O erro não aparece no caixa hoje, mas corrói a margem ao longo do tempo
O maior risco está em a empresa continuar usando a mesma fórmula de sempre sem perceber que a base tributária debaixo dela está mudando. É o tipo de erro que não aparece imediatamente no caixa, mas que compromete a margem mês a mês ao longo dos próximos anos.
Preço por dentro, imposto por fora: a lógica comercial também muda
Hoje, no Brasil, os tributos normalmente estão embutidos no preço do produto ou do serviço. É a lógica do cálculo “por dentro”, em que o consumidor paga sem enxergar claramente a carga tributária. Com a Reforma Tributária, o modelo passa a destacar o imposto “por fora”, de modo que o preço do produto ou serviço é informado sem o tributo, que aparece de forma separada. Isso não representa apenas uma alteração contábil. É também uma mudança na percepção de valor pelo cliente e, por isso, precisa ser comunicada e precificada com cautela para não parecer um reajuste indevido.
Na transição, a mesma operação pode sofrer impactos simultâneos
O período de transição amplifica esse desafio porque os dois modelos coexistem. Haverá situações em que ICMS, ISS e IBS incidirão, simultaneamente, sobre a mesma operação, ainda que com alíquotas reduzidas. Quem não mapear isso, produto a produto e serviço a serviço, pode acabar absorvendo uma carga maior sem repasse adequado ao preço final, especialmente nos casos em que existem benefícios fiscais no sistema atual sem correspondência no novo regime, como ocorre em alguns segmentos de transporte.
O setor farmacêutico mostra como o problema aparece na prática
Um exemplo concreto está nas empresas que atuam na industrialização por conta e ordem de terceiros no setor farmacêutico. Nesse modelo, a empresa fabrica o medicamento, mas o registro do produto, a marca e a relação comercial com o mercado permanecem com o contratante. Essa distinção operacional produz um efeito tributário relevante que muitos gestores ainda não perceberam.
O art. 133 da Lei Complementar nº 214/2025 prevê redução de 60% da alíquota para medicamentos, mas condiciona esse tratamento ao registro do produto junto à CMED, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos, ou à existência de TAC, Termo de Ajustamento de Conduta, firmado com o governo. O ponto crítico é que a industrializadora por conta e ordem, em regra, não possui nem o CMED nem o TAC, pois esses vínculos pertencem ao contratante, e não a quem fabrica. Na prática, isso significa que a empresa que efetivamente produz o medicamento pode não ter direito à redução aplicável ao setor em que ela atua.
O impacto na precificação é direto. Se a industrializadora calcular seu preço partindo da premissa de que terá acesso à alíquota reduzida e, depois, verificar que não se enquadra nos requisitos da LC nº 214/2025, a margem projetada simplesmente desaparece. Como os contratos desse setor costumam ser de médio e longo prazo, o erro tende a se acumular silenciosamente por meses antes de aparecer no resultado.
O impacto setorial não será uniforme
Há ainda um efeito setorial relevante: empresas de serviços, em geral, tendem a enfrentar aumento de carga no novo sistema, enquanto parte da indústria pode se beneficiar da desoneração de insumos ao longo da cadeia produtiva, abrindo espaço para redução de custo ou ampliação de margem. Isso significa que concorrentes de um mesmo mercado podem atravessar os próximos anos com trajetórias muito diferentes, conforme a estrutura de suas operações e a forma como revisarem sua precificação.
O que fazer agora?
Diante desse cenário, algumas medidas são indispensáveis:
– Mapear a carga tributária efetiva atual por produto ou serviço, e não apenas no consolidado da empresa;
– Verificar se os benefícios setoriais previstos na LC nº 214/2025 realmente se aplicam ao modelo de negócio adotado, e não apenas ao setor em que a empresa está inserida;
– Revisar contratos vigentes em busca de cláusulas tributárias desatualizadas ou omissas;
– Criar um modelo de simulação simples para projetar como a carga tributária mudará ano a ano até 2033, acompanhando as regulamentações do CGIBS e da RFB;
Incluir cláusulas de reajuste tributário em novos contratos de médio e longo prazo.
A precificação precisa ser revista antes que o contrato vire problema
A Reforma Tributária representa uma virada estrutural no modelo de tributação do país, e seu impacto sobre a precificação não é pontual. Ele se estende por quase uma década, atravessa contratos, setores e modelos de negócio de formas que nem sempre são evidentes à primeira leitura da lei. O caso das industrializadoras farmacêuticas demonstra isso com clareza: não basta estar no setor certo; é preciso compreender exatamente qual é o papel da empresa dentro dele e o que a legislação efetivamente enxerga na sua operação.
Empresas que revisarem sua precificação agora, com base no que a reforma realmente determina e não apenas no que o mercado supõe, terão mais previsibilidade, contratos mais sólidos e margens menos expostas a surpresas. As que esperarem o problema aparecer no resultado poderão descobrir que corrigir preço no meio do contrato é muito mais difícil do que nunca ter errado.
Iniciativas
Ponto de encontro
Será no dia 21 de maio, a partir das 18h30, o segundo Ponto de Encontro daACBrasil em São Paulo deste ano. Trata-se de mais um momento importante de conexão e fortalecimento da rede de associados e convidados. O encontro será no restaurante Via Castelli (rua Martinico Prado 341, em Higienópolis. O valor é R$ 110 (com direito a cinco tipos diferentes de pizza, água e refrigerante). O local conta com valet gratuito;
Palestra
O presidente da ACBrasil,Carlos Alberto Ercolin, apresenta hoje uma palestra sobre “Boas práticas de um Conselho Consultivo”, a convite da rede MAIS Mulheres nos Conselhos. O evento acontece no Learning Village (rua Harmonia 1250, Vila Madalena, São Paulo) a partir das 9 horas.
Mentoria
Começa no próximo dia 11 de maio a 1ª Edição do programa de Mentoria da ACBrasil. “Trata-se de uma iniciativa para apoiar pessoas em transição de carreira —especialmente conselheiros e C-levels. Contamos com uma equipe de mentores altamente experiente”, explica Karina Pincelli Izzo, da diretoria de Sucesso do Associado e coordenadora do Programa. A primeira edição do Programa de Mentoria ACB acontecerá entre os meses de maio a setembro.
Dica de leitura
Passaporte para a sustentabilidade
Para a autora, uma viagem de volta ao mundo gerou não apenas experiências inesquecíveis – mas também vários insights sobre a aplicação de medidas sustentáveis na gestão de negócios. Diferentes culturas e sociedades ofereceram formas diferentes de pensar e agir, agora reunidas em uma obra que oferece novas alternativas para o desenvolvimento da sustentabilidade em diferentes campos.
O ativo invisível:Giuliana Preziosa. Literare Books, 2026
Datas
1º de maio: Dia do Trabalhador
Neste Dia do Trabalhador, a Associação de Conselheiros do Brasil convida à reflexão sobre o papel fundamental das pessoas na sustentabilidade dos negócios.
Para um Conselho de Administração de alta performance, o trabalho vai além da execução: trata-se de cultivar uma cultura de ética, segurança e desenvolvimento contínuo. É nos níveis de governança que se assegura que o capital humano seja tratado como o ativo mais valioso da organização. Que a nossa governança seja sempre um farol para ambientes de trabalho mais justos, inovadores e inspiradores.
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ACBrasil
Pela integridade na governança
A Associação de Conselheiros do Brasil (ACBrasil) tem por finalidade promover, fortalecer, congregar e representar profissionais que atuam como conselheiros em organizações públicas e privadas, com e sem fins lucrativos, tendo como meta implantar princípios e práticas de Governança Corporativa, em prol do desenvolvimento sustentável, considerando os negócios como catalisadores das mudanças necessárias e gerando impacto positivo sobre a sociedade.


